Repara que o coração do urbano bate bem mais aceleradamente hoje pelo que vê do que pelo que corre. Há uma ligação direta dos olhos ao utensílio cardíaco; estamos cada vez mais em modo de vida ótica: olhamos para tudo como pasmados, vídeos giríssimos e informações evidentemente necessárias martelam nos tímpanos e globos oculares sem descanso, e de tal pancadaria só pode resultar cegueira e surdez. Quem ouve e vê tudo ao mesmo tempo, com uma baba de cão de Pavlov — cão bípede e tecnológico —, fica um senhor incontactável pelo humano que está ali mesmo ao seu lado. Podes tocar no corpo que está online cercado de sons e imagens, o sujeito nada sentirá; está em modo de anestesia sem injeção prévia; uma anestesia mental que coloca o cérebro em modo de puro órgão que só recebe. Cérebro em formato de balde, com um pequeno furo por baixo, claro, e que está de boca aberta para receber o urgente e o que distrai com a mesma ansiedade. Um divertido vídeo basta para nos esquecermos da razão de estarmos em pé ou de nos termos levantado da cama. Se hoje partíssemos à cata do ouro, regressávamos eufóricos cheios de cascalho.