alcatruz

Alcatruz, s.m. (do Árabe alcaduz). Vaso de barro e modernamente de zinco, que se ata no calabre da nora, e vasa na calha a água que recebe. A. MORAIS SILVA. DICCIONARIO DA LINGUA PORTUGUESA.RIO DE JANEIRO 1889 ............................................................... O Alcatruz declina qualquer responsabilidade pelos postais afixados que apenas comprometem o signatário ...................... postel: hcmota@ci.uc.pt

19.11.16

 

Malhas que o Louzã tece


de Manuel Guerra
O Louzã (Henriques) é uma personalidade de excepção – psiquiatra, conselheiro, mestre, filósofo, antropólogo, etnólogo* e coleccionador amador (ama o que faz e colecciona o que ama) expõe a sua colecção de máquinas de costura.
 “Parras, Peles, Fibras e Pelos (Atrium Solum, Coimbra)
Máquinas de costura? Não lembra o diabo; as máquinas e o catálogo são excelentes.
Na apresentação falou (teceu considerações) sobre a história da roupa; atribui às máquinas de costura um papel muito importante na ascensão do estatuto social da mulher. Sem cotas nem leis descriminadoras.
Há uns anos, a propósito da quase extinção da capa e batina em Coimbra, sugeriu que tal facto se deveria não tanto ao luto académico pós 69 mas, sobretudo, às calças de ganga, os jeans.
Gostei da associação mas só agora, ao voltar a ouvi-lo falar sobre a roupa, já com a moda de capa e batina de regresso em força, me deu para parafusar nisso.
A capa e batina era um hábito clerical adoptado pela juventude universitária laica; de ganga era a farda (o hábito) operária que também vinha sendo adoptada pela juventude, universitária ou não.
A primeira manteve o hábito (essa praxe) como símbolo de uma nova condição mas idêntico estatuto; novas circunstâncias levaram os estudantes a substituir esse traje simbólico pelos jeans, que consideraram mais adequado à sua nova condição de “trabalhador intelectual”, título a que, naquele tempo, o estudante se arrogava.
É curioso que tanto a capa e batina como os jeans apagam as diferenças sociais que a roupa habitualmente revela; tanto naquelas como nestas, os rasgões eram ostentados com orgulho e não como sinais de necessidade. Também durante a ocupação nazi, os dinamarqueses passaram a usar a estrela judaica a que só os judeus eram obrigados.
A capa e batina era usada todos os dias, era um hábito universitário das aulas do dia-a-dia e das cerimónias, da praxe ou outras; em qualquer solenidade, universitária ou não, festiva ou fúnebre, a capa e batina ombreava com a casaca civil ou a farda militar de gala. Foi de capa e batina que se protestou contra o DL 40900 em 1956; foi de capa e batina que Alberto Martins, presidente da Academia interpelou a “veneranda figura do Chefe de Estado” em 1969.
Era uma das vantagens da capa e batina – servia integralmente para os cinco anos de formatura – nas aulas e nos exames, nas cerimónias da praxe, nos espectáculos da Orfeon ou da Tuna, na garraiada, no cortejo da Queima e no Baile de Gala.
A capa e batina nem sempre estaria impecável; uma das funções da trupe era assegurar que quem usasse capa e batina o fizesse correctamente – as meias teriam de ser pretas e a camisa teria que estar limpa.
Assim chegaria puída ao dia do exame final a partir do qual deixaria de ter uso; daqui a praxe do rasganço de que se salvava a capa por decoro e para memória. Obviamente que batina ainda em bom estado era trocada pela de outro.
Também os jeans (e as sapatilhas) foram evoluindo de farda operária para hábito informal juvenil, de dia-a-dia, de desporto e lazer vindo a acabar aceite como traje de cerimónia.

Como sempre o mercado e a moda apropriaram-se do fenómeno que exploraram em seu proveito; em vez de troca de batinas puídas antes do exame final, vendem os jeans rasgados como última moda.
Declaração de interesse: o Louzã é meu condiscípulo.
* e poeta e tudo.

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