alcatruz

Alcatruz, s.m. (do Árabe alcaduz). Vaso de barro e modernamente de zinco, que se ata no calabre da nora, e vasa na calha a água que recebe. A. MORAIS SILVA. DICCIONARIO DA LINGUA PORTUGUESA.RIO DE JANEIRO 1889 ............................................................... O Alcatruz declina qualquer responsabilidade pelos postais afixados que apenas comprometem o signatário ...................... postel: hcmota@ci.uc.pt

24.8.10

 
Viagem ao tecto do mundo
Joaquim Magalhães de Castro

*Depois da Indonésia (Mar das Especiarias) agora o Tibet intredito. O relato de uma viagem fascinante para completar a Peregrinação. Excelente.

Convidado à mesa
Na aldeia de Teiul Shang todas as casas têm à entrada vários cornos de iaque e um curral no rés-do-chão que servia de aquecedor natural para os aposentos situados no primeiro andar, à semelhança do que acon­tece nas nossas aldeias do interior. Um homem de rabo-de-cavalo convidou-me a entrar numa dessas casas. Toda a família estava presente: o pai, a mãe e a irmã, uma tibetana que parecia ter aca­bado de sair de uma tela de Brueghel. Estava também presente uma mulher que falava hindi e dizia viver no Nepal, uma criança de olhos vivos e cabelo em rasta e outros dois convidados, ves­tidos com trajes mais modernos.
Era a hora do almoço e fui convidado a comer com eles, que estavam já sentados a uma pequena mesa rasteira e rectangular, encostados à parede. Dali podia ver-se a cozinha, com potes de três pés (como nas aldeias portuguesas) e colheres suspensas da parede. Foi-nos servido muito leite de iaque seguido de muito chá e ainda chang. A senhora «Brueghel», com simpatia, não parava de sorrir e de me servir de beber, pois, de acordo com a tradição tibetana, o hóspede deve ser continuamente servido até que vire o copo ao contrário, sinal de que está satisfeito.
O método de preparação da tsampa assemelha-se à forma como o pedreiro faz cimento. Junta-se o chá ao cereal e depois, com a ajuda dos dedos, vai-se rodando o cereal até que fique im­buído por completo, amassando depois esta mistura até que se torne numa massa consistente, em forma de bolo. Só depois inge­rem este preparado. Sabem a quantidade exacta de chá que deve ser misturado com a tsampa de modo a que esta não fique muito húmida nem muito seca. Finda a refeição, limpam impecavelmente as gamelas e guardam-nas dentro dos casacos. Assim, ficam pron­tas para o próximo repasto. Aquela tarde foi uma aula inesperada sobre o modo de vida dos tibetanos.

Às compras
... decidi passar a tarde a lavar peú­gas, roupa interior, camisas e lenços na água gelada de um dos braços do rio. Havia, para além disso, que comprar mais pro­visões. Frutos secos no uigur; massas instantâneas e picles no chi­nês; leite em pó e queijo seco no tibetano, que, simpaticamente, me ofereceu tsampa quando mostrei vontade de comprar alguma.
- A tsampa nunca se vende - disse ele. Nem nenhum tibe­tano que se preze vai para lado algum sem o seu saco de cevada torrada.

No mercado vi pessoas que comiam momos frescos, recheados de cebola acabados de sair do forno. Tratei de saber de onde vinham, mas o proprietário do restaurante que os fabricava, ao ver que eu era estrangeiro, recusou, de forma educada, vender-mos. Reminiscências de um tempo já com quase uma década, quando as portas da China mal se haviam ainda aberto aos via­jantes estrangeiros, e foram frequentes as vezes que me recusaram alojamento, alimentos, bilhetes para transportes públicos ou até para um simples banho, porque era estrangeiro.

À boleia no Tibete
Nós, de mochilas às costas, ansiosos pelo fim das operações, aguardávamos a ordem de partida. O anão foi erguido para a cai­xa do camião como se fosse um saco. Ele e o companheiro tinham como destino Lhasa, onde pretendiam ficar um mês e daí passar a Catmandu e depois a Simikot. Uma vez mais me surpreendeu a naturalidade com que se falava aqui de passar de um país ao outro como se isso fosse uma coisa banal. Era óbvio que as viagens entre o Tibete e o Nepal eram feitas clandestinamente, por caminhos que só os comerciantes conheciam e que eram quase impossíveis de policiar, não só devido à sua extensão como à topografia da região.
Uns 100 metros após o início da viagem, parámos. Na caixa do camião foi acomodado mais um carregamento de sacos de lã e, com ele, uma família composta por um pai, uma mãe, um bebé e dois rapazinhos, um deles com uma daquelas cristas que os punks celebravam no mundo ocidental, mas que é comum entre as tribos nómadas há milhares de anos, dos Himalaias a África. Ao todo, éramos nove criaturas no topo de um camião carregado com malas de metal, selas de cavalo feitas de madeira, tendas, camas de pano, sacos com cones de açúcar amarelo, tapetes, peles de ovelha, de cabra e de iaque, algumas delas ainda com marcas de sangue, picaretas, pás e os mais diferentes sacos contendo os mais inesperados produtos. Adeus Purang, que o frio nos empurrava!

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