alcatruz

Alcatruz, s.m. (do Árabe alcaduz). Vaso de barro e modernamente de zinco, que se ata no calabre da nora, e vasa na calha a água que recebe. A. MORAIS SILVA. DICCIONARIO DA LINGUA PORTUGUESA.RIO DE JANEIRO 1889 ............................................................... O Alcatruz declina qualquer responsabilidade pelos postais afixados que apenas comprometem o signatário ...................... postel: hcmota@ci.uc.pt

28.2.05

 
"Abraço Lusófono" 4
Muxima, Páscoa de1963
Médico duma Companhia indígena nesta aldeia à beira do Quanza. Todos os soldados e quase todos os furriéis eram africanos.
De manhãzinha fazia as consultas e visitava os doentes do "hospital", acompanhado do experiente enfermeiro do Serviço de Saúde oficial; a partir das cinco e meia da tarde a temperatura tornava suportável o volley, mas só até às seis e um quarto que a noite caía rapidamente, quase sem crepúsculo. Mas não era a falta de luz que nos obrigava a suspender o jogo -- poderíamos continuá-lo à luz de milhares de relâmpagos de centenas de trovoadas que se desencadeavam todos os dias, sempre a essa hora; o que nos impedia era a chuva grossa que caía em catadupas e a que se seguia a invasão dos mosquitos...
Os colonos brancos que restavam, continuavam com a vida que sempre haviam tido. Não apreciavam que o médico só os atendesse depois de terminado o serviço oficial. Nunca perguntaram o preço da consulta nem a agradeciam; a "tropa" estava lá para os defender-- às suas propriedades, vidas e saúde. De qualquer modo não privei muito com eles.
Os furriéis eram angolanos com o curso liceal; Angola não tinha Universidade o que os impediu de continuar. Procurando saber a razão desta guerra que não sentia minha, eram eles os interlocutores privilegiados.
Muxima era conhecida pelo seu santuário procurado por mulheres estéreis. O padre, negro, ali vivia com a mãe. Convidou-me para o almoço de domingo de Páscoa; ali estavam também dois dos "meus" furriéis.
A mãe do padre à cabeceira da mesa.
Velha (da idade que eu tenho agora), negra, vestida com os panos tradicionais, presidia ao almoço com uma atitude de discreta e inesperada fidalguia; usava os dedos para levar o funje à boca, com a elegância com que comeria cerejas. Todos os gestos eram delicados, quase solenes. O almoço era frugal mas muito agradável--funje de mandioca e peixe do rio (bagre?) frito em óleo de palma.
A conversa começou com evocações familiares mas rapidamente evoluiu para a guerra; eu era o único branco, médico e "português". Cada um evocou outras Páscoas com a família. Os pais dos meus amigos eram comerciantes e percorriam Angola no seu negócio; durante as férias, os filhos acompanhavam-nos. Nas "cantinas" da estrada era frequente só serem admitidos pela porta de trás e servidos em zonas separadas.

Durante o almoço foram-me contando as inúmeras formas de discriminação a que eram sujeitos, umas mais brandas que outras. Tudo num tom coloquial, tranquilo e sem rancor, como se se tivesse passado há muito tempo ou a outros.
Por fim não pude deixar de perguntar porque estavam do "nosso" lado.

--Tinham visto os massacres da UPA no Norte de Angola, em 1961; assim não...

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