Alcatruz, s.m. (do Árabe alcaduz). Vaso de barro e modernamente de zinco, que se ata no calabre da nora, e vasa na calha a água que recebe. A. MORAIS SILVA. DICCIONARIO DA LINGUA PORTUGUESA.RIO DE JANEIRO 1889 ............................................................... O Alcatruz declina qualquer responsabilidade pelos postais afixados que apenas comprometem o signatário ...................... postel: hcmota@ci.uc.pt
Reunião de Curso em Alcobaça 3
O que terá levado os condiscípulos de há mais de meio século, todos com mais de 70 A, a vir passar um dia no Mosteiro? A fadiga dos anos que recomenda pousada? Aconselhavam-nos a pensar na reforma a partir dos 40; será que, subconscientemente, estaríamos a pensar regressar a uma República de Veteranos?A genica de quase todos não o sugere mas que melhor imagem disso que um mosteiro para onde se retiravam os terceiros filhos das famílias fidalgas que não podiam aspirar a herança que lhe mantivesse o padrão de vida habitual? Sem o apoio da família reuniam-se aos do mesmo estatuto para obter por cooperação o que tinham perdido pelas leis do tempo. A soma do pecúlio de muitos, mesmo que pequeno, resultava numa boa soma que ia sendo adicionado pela piedosa esmola de alguns; bem gerida, daria um bom retorno, tanto mais que não haveria herdeiros a partilhar o bolo. Ali conviviam com os da mesma condição, retirados do mundo, reformados. E lá iam ficando, recolhendo memória, escrevendo história.
- Para a Livraria, frei João!
Livraria! Casa de livros. Era assim que os cistercienses chamavam à biblioteca e ao seu arquivo. O maior tesouro do espírito que existia em terras do reino. Corremos por entre as gentes, atentas só à pilhagem, como aves de rapina agindo a destempo, com pressa de fugir com o esbulho e a má consciência. A porta da Livraria estava arrombada. Alguns carregavam códices e ameaçavam pegar fogo àquele amontoado de séculos de pensamento.
Os dois agarrámos, por instinto, cada um seu barrote e aos gritos irosos expulsámos os intrusos, que fugiram sem mais dizer, apanhados pelo imprevisto e desencontrados pela sem-razão dos actos. Ficámos à porta da Livraria, como guardiões de dimensão sobre-humana..
Dias depois, o visconde de Seabra e o senhor Alexandre Herculano chegaram ao Mosteiro. Pelo chão, restos de tudo, como se tivesse havido uma batalha e um fogo-de-santelmo tivesse descido pela torre até ao espavento da baixeza dos homens.
- Chegamos tarde, senhor Alexandre Herculano - disse o visconde. - Foi para isto que fizemos revoluções de liberdade, para
combater o atraso?
Quando chegaram à porta da Livraria, o espanto foi geral. As prateleiras vazias, as cadeiras quebradas e bocados de papel por todo o lado diziam bem da depredação que por ali passara. - Os códices? Os códices? - gritou Herculano.
...
- Aguardai - disse frei Elias. Vinde ver o trabalho das minhas noites desde que os cistercienses abandonaram o Mosteiro.
E frei Elias, foi abrindo as capelas funerárias e arredando as pedras das campas. Perante o espanto geral, surgiram à vista de todos os livros, os códices, os maços de documentos que frei Elias ia mostrando e retirando. (Luis Rosa. O claustro do silêncio. Presença 2002). Etiquetas: curso Alcobaça